O Símbolo
Com a decisão de fundar um dojo, surgiu a necessidade de nomear esse Caminho e lhe dar uma forma que o represente. Todo nascimento exige uma identidade: um nome, um símbolo, uma direção. A identidade de um dojo vai muito além da aparência do espaço físico; ela reflete uma visão de mundo, um modo de viver e os valores que se deseja cultivar.
Dar nome a algo é um ato de criação. Cada letra carrega uma potência e, ao se agruparem na formação de um nome, originam um centro único de energia. Por isso, a escolha do nome do dojo não se deu ao acaso, foi guiada por uma intenção clara e consciente.
Eu estava em busca de um nome que
vibrasse na frequência do meu propósito. Sendo também professor de yoga
desde 2018, o dojo acolheria ambas as práticas — jiu-jitsu e yoga. O
nome ideal deveria ressoar com os dois Caminhos.
Foram dias de imersão entre pesquisas,
combinações de palavras e meditação. A cada nova possibilidade, eu alternava
entre sentar na cadeira diante do computador para pesquisar e no chão para
meditar — deixando que o silêncio esvaziasse a mente, abrindo espaço para o
“download” do universo. Após esse processo de investigação, reflexões, escuta profunda
e insights meditativos, as palavras de origem japonesa zen e dojo emergiram e foram escolhidas por
seus significados intrínsecos.
Hoje,
o termo zen é frequentemente usado
como adjetivo para descrever uma pessoa calma, serena — uma interpretação superficial, distante da
profundidade de seu significado original. Zen é a forma fonética japonesa do termo
chinês ch’an, que por sua vez é a
abreviação de chánnà — uma transliteração do termo
páli[1] jhāna, proveniente do sânscrito[2]
dhyāna, que designa um estado
meditativo profundo.
Ao
longo da transmissão do budismo da Índia à China, da China à Coreia, e da
Coreia ao Japão, o termo dhyāna passou por transformações até se tornar zen
— termo que
também nomeia uma das principais escolas do budismo japonês: o Zen Budismo, que
influenciou profundamente a cultura, as artes e o espírito marcial.
Por
sua vez, dojo é a forma fonética
japonesa do termo chinês dàochǎng, no qual dào (ou tao) significa “caminho, princípio de vida”; e chǎng, “lugar”. Trata-se da transliteração do termo
sânscrito bodhimanda, o local onde Siddhartha Gautama tomou
assento — manda — para alcançar bodhi — a
Iluminação[3].
Herdado
do budismo, o termo passou a designar o espaço onde os monges praticam e
estudam meditação. Um ambiente espiritualmente propício, onde a essência da
Iluminação está presente. Originalmente, os dojos eram anexos aos templos
budistas.
Era
comum que mestres marciais estudassem ou praticassem nesses templos, recebendo
orientação direta de monges. O espírito do zen passou, então, a integrar
a formação do guerreiro. Por essa influência, o uso do termo dojo para as salas de treinamento de arte
marciais — como espaço de
cultivo do corpo, da mente e do espírito — começou a se popularizar.
De forma simplificada, zen pode
ser compreendido como “meditação” ou “a busca pela iluminação” — um termo familiar
aos iogues; e dojo como “lugar do caminho” — expressão bem conhecida
entre os budōka[4].
E assim nasceu o nome “Zen Dojo”.
Simples, direto e profundo. Juntas,
essas palavras formam uma síntese harmônica: um nome que carrega em si o
silêncio da meditação e o vigor do combate. Um nome que acolhe o guerreiro em
busca da iluminação. Um nome que carrega um ensinamento, e que representa o ideal de um verdadeiro
dojo:
Um local para reencontrar sua essência
por meio das práticas de autoconhecimento.
[1] Dialeto derivado do sânscrito, falado pelo
Buddha Siddhartha Gautama. Tornou-se uma língua litúrgica usada no cânone do
budismo Theravāda.
[2] O sânscrito é considerado a mãe de todas as línguas. Uma
língua perfeita que evoca a vibração espiritual do que é pronunciado. É a
língua dos deuses, dos sábios da Índia antiga, das escrituras sagradas, dos
mantras, do yoga.
[3] Ou
“despertar”, designa o estado de compreensão profunda e direta da verdade
última — o insight que liberta
do ciclo de nascimento e morte (saṃsāra). Não é
apenas um conhecimento intelectual, mas uma realização experiencial da
realidade tal como ela é.
[4] Praticantes do Budō.
Sensei Thiago Caitanya
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